A Performance da Consciência
Maria Silva | APR 10
A cultura espiritual vive num tempo em que a performance não se dá apenas no corpo, também acontece no campo da consciência.
Iludimo-nos sobre aquilo que realmente significa ser espiritual.

A performance da consciência é tão subtil que podemos nem dar por ela. Quando presente, torna-nos reféns de uma estética mental, submissa, passiva e adaptável a algo ou a alguém que supostamente nos guia e orienta.
É expectável à cultura do Yoga atual que o praticante sinta, pense e faça a sua prática de determinada maneira; e é, portanto, expectável que no momento da sua prática pessoal, o praticante se guie por preceitos que em nada têm a ver com o que realmente significa estar na sua prática pessoal.
A prática pessoal de um praticante de yoga é composta por diversas camadas, sendo a mais profunda aquela em que o praticante dedica tempo sozinho a si mesmo. Esta reflexão surge dessa camada, o momento em que o praticante de yoga está sozinho, num tempo e num espaço em que não é observado nem guiado e, ainda assim, continua a sua performance. Nesse momento, o praticante está ali, sozinho, mas realmente ainda não se entregou.
Deixo esta pergunta: não estamos nós SEMPRE em nós mesmos?
Se mesmo sozinhos, continuamos a alimentar a nossa performance interna como se tivéssemos alguém a olhar para nós.
Talvez a questão não seja “como pratico”, mas “para quem estou a praticar?”.
Quem é essa presença invisível que continuo a alimentar dentro de mim?
Quem é esse olhar que me acompanha mesmo quando ninguém está?
A performance da consciência revela-se precisamente aí: na incapacidade de abandonar a ideia de que há uma forma certa de estar.
Na dificuldade em sustentar o vazio de referências.
No desconforto de não corresponder a nada.
Quando o gesto deixa de ser construído e passa a ser escutado.
Quando o corpo deixa de obedecer e começa a revelar.
Quando a respiração já não é técnica e sim expressão.
É nesse lugar que a prática deixa de ser uma repetição de modelos e se torna um encontro.
Um encontro cru, sem estética.
Sem narrativa.
Sem testemunhas exteriores.
Talvez seja por isso que esse lugar é evitado; porque aí não há identidade espiritual para sustentar.
Não há nada para mostrar.
Não há sequer alguém para validar.
Há apenas aquilo que É.
Permanecer nesse espaço sem o moldar, sem o interpretar, sem o transformar em algo “espiritualmente correto” pode ser o gesto mais radical da prática.
Talvez o Yoga Moderno esteja a falar sobre como deixar cair tudo aquilo que fazemos para parecermos conscientes.
Maria Silva | APR 10
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